Há algum tempo
reencontrei um amigo de infância. Um daqueles com quem jogava bola, ia a shows
na adolescência, dormíamos um na casa do outro de vez em quando, nos metíamos
nas mais diversas e inocentes encrencas e, também, saíamos juntos delas, enfim
amigão mesmo.
Ele me viu na TV,
buscou meu nome na internet e me ligou convidando-me a ir visitá-lo em sua casa
recém construída. De pronto aceitei o convite.
Obviamente fui
muito bem recebido por um casal super orgulhoso de suas conquistas materiais,
seu contentamento somente era menor que a felicidade de terem gerado dois
filhos. Mostraram cada cômodo da casa, a área de churrasqueira, piscina,
lareira, a cozinha com eletrodomésticos novinhos e todas as quatro TVs de tela
plana, uma para cada pessoa dentro da casa nova.
Enquanto as
crianças brincavam e nossas mulheres se conheciam (àquela época eu era casado),
meu amigo fazia o churrasco e relembrávamos as mesmas histórias e piadas de 30
anos atrás (ou mais). Conversa vem, conversa vai perguntei a ele por que ainda
não havia colocado vidros nas janelas? Afinal bastava abrir as venezianas para
que o vento soprasse muito. Com venezianas fechadas soprava menos.
A resposta foi
simples: “Tá louco Mauro? Você viu a quantidade de vidros que tenho que colocar
nesta casa? O vidraceiro divide em no máximo três vezes. Assim que terminar de
pagar algumas contas, vou juntar para isso.”
Ah OK. Pensei e
respondi eu. Afinal trata-se de meu amigo e do dinheiro dele. Mas a atitude
dele me fez pensar novamente em prioridades e premissas. Meu raciocínio é
simples, para quem possui 4 TVs super modernas, para quem tem uma piscina para
manter, acredito que possa comprar vidros para as janelas, afinal seriam mais
importantes. Ao menos para mim seriam.
As conquistas
daquela família, e de muitas outras, foram galgadas no crediário. Na recém
formada cultura financeira do brasileiro encapsulada na frase “cabe no bolso”.
Tal cultura é galgada em premissas temporais e por vezes etéreas como, ter um
bom emprego e empregabilidade, ou se for mandado embora conseguir uma
recolocação rápida. Ou ainda, o Brasil está crescendo e a inflação sobre
controle. O fato é que tudo isso está passando, está se deteriorando, e as
dívidas dos indivíduos e famílias continuarão.
Já quis estar
errado sobre isto mas os números crescentes da inadimplência no Brasil mostram
que isto está correto. A inflação em seu voo suave, pressiona orçamentos onde a
prestação de quatro televisores que seria plenamente aceitável, não mais será
em pouco tempo. Vejamos em números.
Imagine uma
família com Receita Familiar total líquida de R$5.000,00, despesas com parcelas
de tudo que é pago via financiamento: R$1.750,00 (35%), demais despesas da
família R$3.000,00. Portanto sobram R$250,00.
Mesmo que todo o financiamento seja feito em parcelas fixas, as demais despesas
como água, luz, telefone, alimentação, escolas, transporte, etc. sofrerão a
ação da inflação, que ao alcançar 10%, transformarão os gastos de R$3.000,00 em
R$3.300,00, portanto fazendo faltar R$50,00 no orçamento desta família.
Para todos que
deram vazão aos seus sonhos de consumo usando o caminho do crédito, incluindo
meu amado amigo que permitiu usar seu exemplo neste artigo, sugiro que
verifiquem a duração de suas prestações. Tomara que terminem antes da inflação
alcançar de forma devastadora as demais despesas e o orçamento familiar.
Rever seu
orçamento e investir melhor, com mais rentabilidade mas, a mesma segurança dos
grandes bancos, são atitudes que podem eliminar o aperto de qualquer orçamento.
*O professor
Mauro Calil é especialista em investimentos no Banco Ourinvest. É também palestrante e
autor dos livros “Receita do bolo” e “Separe uma verba para ser feliz” e
proprietário da Academia do Dinheiro, instituição especializada em cursos de
educação financeira e finanças. Possui mestrado pela USP e Pós Graduação em
Marketing pela ESPM e certificado pela ANBIMA como CEA.

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